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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Euro completa 10 anos em momento de crise com endividamento

da France Presse, em Frankfurt


 O euro completa seu décimo aniversário no próximo domingo, juntamente com o início de 2012, em um momento hesitante para os 17 países que o adotaram durante essa década de existência.
Utilizada desde 1999 pelos mercados financeiros, a moeda única irrompeu no dia 1º de janeiro de 2002 na vida de doze países da UE (União Europeia), que tiveram que se despedir para sempre da peseta espanhola, do franco francês, da lira italiana e do marco alemão.
Atualmente, a zona do euro engloba 332 milhões de pessoas em 17 países. Em meados de 2011, 14,2 bilhões de notas e 95,6 bilhões de moedas circulavam com um valor de cerca de 870 bilhões de euros, segundo o BCE (Banco Central Europeu).
Os líderes políticos e economistas não param de destacar os pontos positivos da moeda única: "Preços estáveis para os consumidores, mais segurança e oportunidades para as empresas e os mercados", e, inclusive, "um sinal tangível de uma identidade europeia", afirma o site da Comissão Europeia.
Mas, com a crise da dívida, que detonou na Grécia em 2010 e depois se espalhou para toda a zona do euro, os velhos ressentimentos foram retomados. Os eurocéticos, no início considerados os desmancha-prazeres, ganham cada vez mais adeptos, enquanto crescem vertiginosamente as diferenças entre os países do norte e do sul da Europa.
Apesar de suas vantagens para viajar, "os consumidores nunca estiveram muito felizes (com o euro) e sempre mantiveram a percepção inicial de que equivalia a um aumento dos preços", afirmou André Sapir, economista de Bruegel, um centro de análise baseado em Bruxelas.
Os que continuam fazendo a conversão para sua moeda nacional "o fazem com os preços de dez anos atrás". Isso explica a percepção de que houve uma grande inflação, disse. Por outro lado, a identidade europeia foi fortemente atingida pela crise da dívida, com os alemães criticando o "relaxamento" dos gregos e italianos, e os franceses avivando velhos sentimentos de germanofobia.
NÃO HÁ PLANO ALTERNATIVO
As empresas não demoram para destacar os benefícios do euro, sobretudo na Alemanha. A poderosa indústria automotiva do país economiza entre 300 e 500 milhões nos gastos de transações devido à entrada em vigor da moeda única, segundo Jurgen Pieper, analista do banco alemão Metzler.
"Tudo parecia ir cada vez melhor até a crise financeira, que revelou as falhas institucionais da zona do euro", disse Philip Whyte, pesquisador do Centro de Reforma Europeu, baseado em Londres.
A dívida de 12 dos 17 países do euro encareceu e, além dos casos extremos de Grécia e Itália, a situação afeta seriamente a Espanha, país que também está pagando a taxa de juros mais alta para bônus a dez anos desde que o euro foi adotado.
A falta de uma integração fiscal e de supervisão bancária desencadearam grandes desequilíbrios financeiros.
A forte queda das taxas de juros no sul da Europa após a adoção da moeda única foi um estímulo para os governos e as empresas se endividarem de forma desmedida em todo o mundo, sobre todos os países do norte, que "subestimaram os riscos", afirma o centro de estudos britânico.
Assim, os Estados da zona do euro lutam atualmente para aprovar medidas em direção a um pacto fiscal, que ficarão gravadas nas constituições dos países europeus.
Até o momento, ninguém considera seriamente um retorno às velhas moedas europeias, embora os nostálgicos aumentem, sobretudo entre os alemães, que lembram orgulhosos do marco alemão, emblema do milagre econômico do pós-guerra, e a ideia do fim do euro é debatida abertamente.
Um fim do euro seria uma catástrofe para os bancos europeus, e faria com que, por sua vez, a inflação e o desemprego disparassem, advertem os economistas.
No caso de um país como a Grécia que decida sair da união monetária, sua própria moeda, neste caso o dracma, registraria imediatamente uma forte desvalorização. Os detentores da dívida grega sofreriam grandes perdas. O mesmo ocorreria em cada país que abandonar o euro.
O "fim do euro seria o fim da Europa", advertiu o presidente francês, Nicolas Sarkozy.
O presidente do Banco Central Alemão, Jens Weidmann, recentemente ironizou os rumores de que estavam sendo impressas notas da velha moeda alemã. "Não há plano 'B', não há impressoras nos porões do Bundesbank", afirmou.

sábado, 12 de novembro de 2011

A Face autoritária do reitor da USP

Por Ana Paula Salviatti


Ao resgatarmos a Memória da ditadura militar brasileira (1964-1985) encontramos no meio da história o nome do atual reitor da Universidade de São Paulo (USP), João Grandino Rodas. Entre 1995 e 2002, Rodas integrou a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e esteve diretamente ligado à apuração da morte de alguns militantes de esquerda, dentre eles a estilista Zuzu Angel, caso em que os militares foram inocentados.

Enquanto diretor da Faculdade de Direito, Rodas foi primeiro administrador do Largo São Francisco a utilizar o aparato policial, ao requisitar, ainda na madrugada do dia 22 de agosto de 2007, a entrada de 120 homens da Polícia Militar, inclusive da tropa de choque, para a expulsão de manifestantes que participavam da Jornada em Defesa da Educação, na qual estavam presentes representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), de estudantes e membros de diretórios acadêmicos, os quais foram fichados e levados à delegacia, com um tratamento ofensivo em especial aos militantes dos movimentos populares.

Também foi Grandino Rodas que, ainda na gestão do governador José Serra (2006-2010), lavrou o documento que viabilizava a entrada da PM no campus da USP, em 2009. Durante sua administração na Faculdade de Direito, tentou sem sucesso a implementação de catracas para impedir o acesso de gente “estranha” ao prédio da instituição. Em seu último dia na direção da Faculdade de Direito, Rodas assinou a transferência do acervo da biblioteca para um prédio próximo à Faculdade, o qual não possuía perícia para tanto, apresentava problemas com a parte elétrica, hidráulica e inclusive com os elevadores. Tudo isso feito sem consultar sequer o corpo burocrático da Faculdade.

Ainda durante a gestão de José Serra, Grandino Rodas foi escolhido reitor da USP através de um decreto publicado no dia 13 de novembro de 2009. Seu nome era o segundo colocado numa lista de três indicações. Ou seja, Rodas não foi eleito pela comunidade acadêmica. A última vez que o governador do Estado impôs um reitor à Universidade — utilizando-se de um dispositivo legal criado no período militar e que está presente na legislação do Estado de São Paulo até hoje — foi durante a gestão do governador biônico Paulo Maluf, que indicou Miguel Reale para assumir a Reitoria da USP entre 1969 e 1973.

Na gestão de Rodas, estudantes têm sido processados administrativamente pela Universidade com base em dispositivos instituídos no período militar. Num dos processos, consta que uma aluna — cujo nome ficará em sigilo — agiu contra a moral e os bons costumes. Dispositivos como estes foram resgatados pela USP.

Em agosto de 2011, João Grandino Rodas assinou um convênio com a Polícia Militar para que esta pudesse entrar na Universidade. O reitor também recebeu o título de persona non grata por unanimidade na Faculdade de Direito, que apresenta uma série de denúncias contra a gestão do ex-diretor, acusando-o de improbidade administrativa, entre outros crimes. Recentemente, um novo ocorrido, a princípio um incidente, podia ser visto no campus ao ser lido na placa do monumento que está sendo construído na Praça do Relógio uma referencia à “Revolução de 64”, forma como os setores militares e demais apoiadores do golpe militar se remetem à ditadura vivida no Brasil.

Rodas também é atualmente investigado pelo Ministério Público de São Paulo por haver contratado sem concurso público dois funcionários ligados ao gabinete da Reitoria, sendo um deles filho da ex-reitora Suely Vilela. Contra Rodas também pesam denúncias de mau uso do dinheiro público. E, por último mas não menos importante, Grandino recebeu a medalha de Mérito Marechal Castello Branco, concedido pela Associação Campineira de Oficiais da Reserva do Exército (R/2) do NPOR do 28° BIB. O Marechal que dá nome à honraria, não custa lembrar, foi o primeiro presidente do Estado de Exceção vivido no país a partir de 1964.
Todas estas informações foram lembradas. No entanto, muitas outras lotam o Estado em todas as suas instituições, todos os dias, graças ao processo de abertura democrática do país, que não cumpriu o seu papel de resgatar a Memória e produzir uma História que reconfigurasse e restabelecesse os acontecimentos do regime, possibilitando a rearticulação das inúmeras ramificações do Estado, como foi feito no Chile, Argentina e mais recentemente Uruguai. A consciência dos cidadãos passa pelo tribunal da História que, ao abrir as cicatrizes não fechadas, limpa as feridas ao falar sobre as mesmas dando a cada um o que é lhe de direito.

As diversas vozes que exclamam a apatia nacional frente às condutas políticas sofrem deste mesmo mal ao não relembrarem que a história do país conduzida por “cima” não expulsou de si seus fósseis, e sim os transferiu de cargo, realocou-os em outras funções. Os resgates da imprensa são limitados às Diretas Já e ao Impeachment de 1992. Se a memória que a mídia repõe é a mesma que se debate no cotidiano, então nosso país sofre de perda de memória e, junto disso, de uma profunda inaptidão crítica de suas experiências, dando assim todo o respaldo ao comumente infundado senso comum.

Ao levantarmos o passado, constata-se que o anacronismo não está só nas inúmeras manifestações que acontecem no meio universitário, no caso a USP, mas em todas as vezes em que não são cobertas pelo noticiário as inúmeras reintegrações de posse feitas em comunidades carentes, nas manifestações que exigem a reforma agrária, nas reivindicações que exigem moradia aos sem-teto. O anacronismo está presente nas inúmeras invasões sem mandado judicial que ocorrem em todos os lugares onde a classe média não está, no uso comum de tortura pelas Polícias Militares em um Estado que se reivindica democrático, nos criminalizados por serem pobres e negros, naqueles que são executados como Auto de Resistência pelas Polícias Militares, e a lista segue. Vive-se a modernização do atraso nas mais diversas formas e matizes.

O tempo se abre novamente e aguarda o resgate da Memória e a reconstrução da História. O país tem uma dívida a ser paga com seu passado, e eis que, finalmente, a Comissão da Verdade vazia de sentido ao ser apresentada pelos inábeis veículos de informação ressurge agora preenchida e repleta de sentido. Afinal, a História dos vencedores nega o passado dos vencidos, assim como seu presente e, consequentemente, seu futuro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Futebol-modernidade

Texto muito bom que meu amigo Diógenes escreveu e está no site Conhecimento, Tecnologia e Mercado.

Por Diógenes Marcelo Carvalho¹


O esporte, hoje, é um negócio global. Na NBA, a liga de basquete dos Estados Unidos, as equipes são franquias. O futebol, como todas as áreas da vida, também não escapa dos tentáculos do capitalismo. Desde seus primórdios, aquele que é considerado o esporte mais popular do mundo vem cada vez mais sendo transformado mais em um negócio - e em espetáculo - e menos em esporte, distanciando-se de suas raízes comunitárias e do torcedor. O caso mais evidente disso é o futebol inglês, para muitos o verdadeiro país do futebol. 

Nos anos de 1980, o Reino Unido - e a Europa como um todo - sofreu com o "hooliganismo" e com as condições ruins dos estádios. Dois dos casos mais famosos são a final da Copa dos Campeões da Europa de 1985, em Bruxelas, na Bélgica, quando, após torcedores do Liverpool, da Inglaterra, invadirem o espaço destinados aos torcedores da Juventus, da Itália, os torcedores italianos correram na direção contrário e centenas foram esmagados em um muro de contenção, causando 39 mortes e o banimento das equipes inglesas das competições europeias por cinco anos; o outro caso ocorreu em 1989, no jogo entre Nottingham Forest e Liverpool, ambos da Inglaterra, em que 96 pessoas morreram esmagadas, devido à superlotação do estádio Hillsborough. O desastre de 1989 foi a gota d'água que levou à elaboração do Relatório Taylor, cuja versão final foi publicada em janeiro de 1990. O relatório procurava estabelecer as causas do desastres e emitir recomendações de como evitar novas tragédias, como a exigência, para os times das divisões superiores, de que todos os espectadores fiquem sentados, o fim dos alambrados e até sobre o preço dos ingressos. Além disso, o Football Spectator Act introduziu a distribuição de cartões de identificação para os torcedores, de modo a identificar hooligans e evitar a presença deles nos estádios. Tais transformações exigidas pelo relatório demandaram alto investimento das equipes. 

Em 1992, criou-se a Premier League, que marcou o rompimento dos principais clubes ingleses com a Football League, com o objetivo de tirar vantagem das vendas dos direitos de transmissão do campeonato. Associada às mudanças exigidas pelo Relatório Taylor, desde então, o que se viu foi uma intensa modernização e profissionalização do futebol inglês, que acabou por se tornar o mais rentável campeonato de futebol do mundo e, portanto, o modelo para outros países. Em 1986, os clubes receberam £6,3 milhões por um acordo de dois anos pelos direitos de transmissão; pelo contrato atual, a Premier League recebe, por três temporadas, € 3,538 bilhões no total, valor que é desigualmente distribuído entre as equipes, criando uma elite futebolística que, na posse da maior parte do capital, domina o campeonato local e esmaga os clubes menores. 

O torcedor passou então a ser tratado como consumidor. A globalização e o desenvolvimento dos meios de informação criou um mercado gigantesco para os clubes de futebol. Hoje em dia, é comum que clubes europeus façam pré-temporadas na Ásia, na busca não por novos torcedores, mas de novo mercados, milhões de pessoas dispostas a consumir chaveiros, bolas de golfe, camisas, bonés, canecas e muito mais, tudo com a marca do clube do coração. Nos estádios ingleses, os espectadores são obrigados a ficar sentados e se comportar, sendo vigiados por fiscais que repreendem os torcedores mais exaltados, como relata Marcos Alvito, em matéria para a Revista Piauí: "Durante um jogo do Birmingham City contra o West Ham, um desses funcionários proibiu-me de tirar fotos com minha humilde e despretensiosa câmera fotográfica. A explicação: o espetáculo é propriedade do clube. E dele agora fazem parte os mascotes infantilóides, como bichos de pelúcia gigantes: leõezinhos, elefantinhos, cachorrinhos. À venda na loja do clube, é claro" . Os estádios também não escaparam. Novas e modernas arenas são construídas, muitas vezes desrespeitando as raízes dos clubes, mudando de bairro e distanciando-se da vida comunitária, mas garantindo aos clubes rendas provenientes da instalação de lojas dentro dos estádios, maior capacidade de público e também através da venda dos naming rights, que ajudam a viabilizar a construção das arenas. Temos, assim, a Allianz Arena na Alemanha, o Emirates Stadium e o Reebok Stadium, na Inglaterra. Tudo passa a ser mercadoria. O nome dos campeonatos também não escapam: a primeira divisão inglesa se chama Barclays Premier League; o principal torneio sul-americano se chama Taça Santander Libertadores da América. 


Preços proibitivos foram postos em prática na venda de ingressos, na Inglaterra, na tentativa de afastar as camadas mais pobres (e os hooligans) dos estádios, resolvendo de uma tacada só o problema da violência e trazendo uma classe média disposta a gastar muito dinheiro com o seu clube do coração, tudo em prol do espetáculo:

''(...) Era a transformação do futebol num ramo privilegiado da lucrativa indústria do entretenimento."

Em nome da segurança, desencadeou-se um processo de higienização dos estádios de futebol, agora transformados em shopping centers ou, nas palavras dos sociólogos Tim Crabbe e Adam Brown, "'palácios do prazer' onde o espetáculo é 'produzido' para uma variedade de 'consumidores'". Os estádios de futebol, antes considerados territórios sagrados dos clubes e de seus torcedores, muitas vezes são vendidos para construtoras, erigindo-se "arenas multiuso" em lugares distantes do bairro onde tudo começara, privando a vida comunitária de um dos seus centros mais importantes'' (ALVITO, Marcos. (2007) “O esporte que vendeu sua alma”. In: Revista Piauí, 15. dez.)

Os clubes agora são empresas, inclusive com ações nas bolsas de valores. Vários clubes ingleses estão nas mãos de estrangeiros, cujos interesses não estão sempre ligados ao sucesso esportivo. "Não é mais tudo pela vitória. Agora, é tudo pelo equilíbrio contábil" (idem). Mas há exceções, como o Chelsea, tradicional clube de Londres, comprado em 2003 pelo bilionário russo Roman Abramovich, acusado de diversos crimes na Rússia, mas disposto a dispender de centenas de milhões de dólares e aparentemente pouco preocupado com o equilíbrio contábil, o que transformou o clube em um dos mais importantes do mundo. Com a crise econômica de 2008, os americanos donos do Liverpool assumiram grandes dívidas e quase levaram o clube à falência, da qual só escapou com a venda para outro norte-americano na data-limite para que a quebra do clube fosse evitada. O Manchester United, clube com maior faturamento do mundo, também tem dono americano e uma dívida de US$ 1 bilhão.

Além de consumidores, os fãs do futebol são explorados de outra forma por seus clubes:
(...)Quando a Fifa alardeia que os estádios devem estar lotados, portanto, é mais uma questão de estética de show do que financeira. O lucro da entidade em nada depende da venda de ingressos, mas para o sucesso do espetáculo as arquibancadas precisam estar cheias. "É o que o Berlusconi disse: o futebol ideal vai ser o dia em que a torcida receber para estar no estádio e se comportar exatamente como uma claque de auditório de um programa de tevê", comentou Alvito. (A Copa do Cabo ao Rio. Revista Piauí, n. 44.) 

Ou seja, o torcedor se torna parte do espetáculo, parte da mercadoria. Ao preencher os espaços vazios dos estádios, ajudam a valorizar os torneios e a atrair cada vez mais dinheiro para os clubes nas vendas de direitos, sem receber nada por isso, ou melhor, pagando caro. Outro exemplo de trabalho não pago é o caso de um torcedor do Corinthians, que criou uma música que se tornou popular em jogos da equipe em 2008. Sem remunerar o torcedor, o clube passou a utilizar a música em ações de marketing, camisas e até em um filme sobre a equipe. Os espectadores do futebol também são bombardeados pelos patrocinadores o tempo todo, em placas ao redor dos gramados, produtos licenciados, patrocínios nos uniformes e por produtos anunciados pelos próprios jogadores, que deixam de ser meros futebolistas e se tornam modelos, fazem propagandas de lâmina de barbear e xampu a refrigerante e cerveja, tornando-se meio para a exposição de produtos. Alguns até encarnam o papel e parecem mais preocupados com a própria imagem do que com seu desempenho em campo, como o português Cristiano Ronaldo, que durante a Copa do Mundo da África do Sul olhava repetidamente para o telão do estádio, checando como aparecia para as câmeras de todo o mundo.

Uma pessoa que deseja jogar um game é uma pessoa desejado pelo game como fonte de valor. (A regra do jogo: desejo, servidão e controle. GARCIA DOS SANTOS, Laymert; PEIXOTO FERREIRA, Pedro)

Uma pessoa que deseja torcer pelo seu clube é uma pessoa desejada pelo seu clube. As equipes-empresas do futebol moderno precisam de clientes, de consumidores, de pessoas dispostas a gastar dinheiro em suas arenas multi-uso, em seus suvenires e em lotar os estádios e valorizar suas imagens, comprar o produto que o craque de seu time expõe. A lógica do futebol moderno é a lógica do capital. Os clubes precisam arrecadar cada vez mais dinheiro para comprar jogadores que são cada vez mais caros, e para isso o esporte é cada vez mais elitizado, abandona suas raízes.




Há, entretanto, as mais diversas formas de resistência a essa racionalização e mercantilização do futebol. Na internet é possível encontrar sites, blogs e fóruns em sites de relacionamento que exprimem o ódio dos torcedores ao futebol moderno. 

Em 2005, o Manchester United foi adquirido pelo norte-americano Malcolm Glazer. Grupos de torcedores da equipe se manifestaram veementemente contra a venda do clube para o investidor. Incapazes de evitar a negociação, torcedores dissidentes - que ganharam a alcunha de Red Rebels, parodiando o apelido do Manchester United, Red Devils - criaram um novo clube, o F.C. United of Manchester, que entrou na décima divisão do futebol inglês. Como não poderia deixar de ser, a internet deu também sua contribuição, com a criação do site MyFootballClub. Os interessados se registram no site e pagando certa quantia podem se tornar donos de seu próprio time, que é dirigido através de votos unitários de todos os membros. Em janeiro de 2008, 95,89% dos membros acertaram a compra de 75% do Ebbsfleet United F.C..

Além de fóruns na internet, os torcedores se manifestam também através de fanzines, revistas sobre os clubes editadas pelos próprios torcedores. Um deles, de torcedores do Birmingham City Football Club, tem os seguintes princípios:

''Os valores da publicação são explicitados em cinco princípios, ilustrados por um camisa nove urinando em cima da camisa nove do adversário daquela tarde, o West Ham: Como um apaixonado e leal torcedor dos Blues, tenho direito a: 1. Tomar uma cerveja ou duas antes do jogo e chegar ao estádio quando eu quiser. 2. Torcer da forma mais radical, gozando e gesticulando para os adversários, intimidando-os o máximo possível. 3. Usar a língua inglesa do jeito que eu quiser. 4. Recusar-me a aceitar as instruções idiotas dos funcionários do estádio. 5. Reagir à vitória, ou à derrota, da porra do jeito que eu quiser, e sair do estádio da forma que corresponda ao resultado. Nós somos famosos por verbalizar nossa torcida e nossa paixão, por mais que isso ofenda aqueles que desejam uma primeira divisão pacífica, quieta e silenciosa como uma biblioteca.''

NÃO DEIXEM OS PUNHETEIROS QUE ROUBARAM O NOSSO JOGO ROUBAREM TAMBÉM A NOSSA PAIXÃO." (ALVITO, 2007)

Os clubes de futebol têm papel muito importante na formação de identidade em diversos países, como a própria Inglaterra, onde era praticado, quando surgiu, pelos operários. Os jogos de sábado são tradicionalmente realizados às 15h, isso porque era o horário em que os operários das fábricas saiam do trabalho neste dia. No entanto, essa tradição tem sido cada vez mais desrespeitada para satisfazer as vontades da televisão, a grande provedora dos clubes não só na Inglaterra. Depois de todos os problemas dos hooligans nos anos 80, a posterior modernização e a higienização dos estádios em prol da segurança, a profissionalização dos clubes, o encarecimento do espetáculo - mais espetáculo do que nunca, cada vez menos vivido e mais assistido à distância -, o abismo entre clubes grandes e pequenos e a sobreposição da lógica do dinheiro sobre as raízes, os torcedores passam a se ver distanciados, com sua identidade fragilizada. 

O historiador Eric Hobsbawm observou que "o futebol carrega o conflito essencial da globalização": as relações contraditórias entre o teor cada vez mais comercial do esporte e a fidelidade emocional dos torcedores. Marcos Alvito completou o raciocínio dizendo que a globalização contribui para o aumento da racionalização do futebol, "mas isso ao mesmo tempo mina a relação do torcedor com o time. Se ele sente que é tratado como um consumidor, e não como um apaixonado, ele passa a agir como tal".


¹Diógenes Marcelo Carvalho estuda Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Outros Artigos

Como estou meio sem nada para escrever e ando vendo muitos blogs interessantes, postarei aqui dois artigos muito interessantes que li em dois blogs que eu gosto muito.

O primeiro é do Tetrapharmakos in Vitro, blog do também biólogo Eli Vieira, artigo intitulado "'Ausência de evidência não é evidência de ausência'. Eu concordo com esta proposição. Mas o que seria uma evidência de ausência, Eli?"

O segundo é do Bule Voador, o blog oficial da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), com o nome "A Ditadura Gay"


Acessem! Vale a pena.