Por José Marcelino de Rezende Pinto¹
In vino veritas
Fruto que sou do período da ditadura militar, em que lutávamos contra o arbítrio dentro e fora da universidade, espanta-me a passividade de nossos alunos atuais. São jovens, cada vez mais novos e que trazem um repertório muito restrito de experiências de vida. Muitos nunca visitaram a capital do estado, ou tiveram alguma experiência de participação coletiva, seja em grêmios escolares, partidos políticos, grupos religiosos, ou sindicatos. Em plena ditadura militar, em 1979, acampamos um mês em frente à reitoria da USP na luta por moradia estudantil e, em nenhum momento, a direção da universidade pensou em chamar a polícia ou o exército; talvez por entender que a universidade seja uma instituição na qual as coisas devem ser resolvidas por meio do diálogo e da argumentação fundamentada. Reivindicávamos moradia, ocupamos o Bloco A do campus Butantã e o reitor respeitou a luta dos estudantes. Afinal, foi a mesma ditadura que expulsou os estudantes do CRUSP, em 1968. Hoje, por qualquer ‘de cá uma palha’, vemos a polícia nos campi das universidades públicas paulistas.
Uma lei hipócrita e baseada em falso moralismo proibiu o consumo de bebidas com teor alcoólico superior a 4,5 ° GL nos estabelecimentos de ensino do estado de São Paulo. O que se pretende com isso? Diminuir o consumo de álcool no Estado de São Paulo? Alguém se lembra do efeito da lei seca nos EUA? Ou desobrigar as instituições educacionais de exercer seu papel formativo com os jovens? Ao, na prática, impedir a realização de festas nas escolas, o que se faz é empurrar os estudantes para o famigerado “open bar”, no qual bebe-se até o coma. A bebida, que, se utilizada de forma adequada, poderia ser um mecanismo de estímulo à socialização, acaba se transformando num fim em si mesmo, com danos irreparáveis à saúde desses jovens. No caso das universidades, para muitos jovens é a primeira vez que saem de casa. Os pais lhes entregam os filhos, e elas, o que fazem? Adotam uma política de avestruz. Agora, esses jovens estão livres para serem atraídos pelos ‘empreendedores’ dessas falsas festas, nas quais não há lugar para a velha e boa conversa. É essa omissão que se espera de uma instituição que tem, segundo a Constituição, o papel de formar o cidadão?
Para onde vão nossas festas juninas regadas a vinho quente e quentão? O que será do IX de Agosto, onde o atual Magnífico deve ter participado de boas tertúlias literárias e políticas?
O ditado que abre este artigo, existente em quase todas as línguas do mundo, indica que é difícil mentir quando se está sob o efeito da bebida. Será este o objetivo verdadeiro dessa infeliz lei? Proteger a mentira? Vinda de onde vem, é uma hipótese que merece consideração.
Tenho certeza, contudo, que a criatividade estudantil inventará um jeito de driblar regras como esta que trazem um forte ranço de fascismo. Não tenho dúvidas de que ainda se pode tomar uma ‘gelada’ no território livre do CA XI de Agosto, nos porões vivos da Academia do Largo de São Francisco e se conversar sobre o que se conversa numa roda de amigos. Tenho convicção de que, em breve, teremos uma cerveja de 4° GL, e um quentão de 3,5% GL para fazermos muitas e gostosas festas nos campi das escolas do estado de São Paulo. Um brinde à convivência sadia e uma vaia à hipocrisia!
