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domingo, 24 de outubro de 2010

Como Ioiô e Iaiá vão pular a fogueira, ou o que estamos fazendo com a nossa juventude?


Por José Marcelino de Rezende Pinto¹
In vino veritas

Fruto que sou do período da ditadura militar, em que lutávamos contra o arbítrio dentro e fora da universidade, espanta-me a passividade de nossos alunos atuais. São jovens, cada vez mais novos e que trazem um repertório muito restrito de experiências de vida. Muitos nunca visitaram a capital do estado, ou tiveram alguma experiência de participação coletiva, seja em grêmios escolares, partidos políticos, grupos religiosos, ou sindicatos. Em plena ditadura militar, em 1979, acampamos um mês em frente à reitoria da USP na luta por moradia estudantil e, em nenhum momento, a direção da universidade pensou em chamar a polícia ou o exército; talvez por entender que a universidade seja uma instituição na qual as coisas devem ser resolvidas por meio do diálogo e da argumentação fundamentada. Reivindicávamos moradia, ocupamos o Bloco A do campus Butantã e o reitor respeitou a luta dos estudantes. Afinal, foi a mesma ditadura que expulsou os estudantes do CRUSP, em 1968. Hoje, por qualquer ‘de cá uma palha’, vemos a polícia nos campi das universidades públicas paulistas.
Uma lei hipócrita e baseada em falso moralismo proibiu o consumo de bebidas com teor alcoólico superior a 4,5 ° GL nos estabelecimentos de ensino do estado de São Paulo. O que se pretende com isso? Diminuir o consumo de álcool no Estado de São Paulo? Alguém se lembra do efeito da lei seca nos EUA? Ou desobrigar as instituições educacionais de exercer seu papel formativo com os jovens? Ao, na prática, impedir a realização de festas nas escolas, o que se faz é empurrar os estudantes para o famigerado “open bar”, no qual bebe-se até o coma. A bebida, que, se utilizada de forma adequada, poderia ser um mecanismo de estímulo à socialização, acaba se transformando num fim em si mesmo, com danos irreparáveis à saúde desses jovens.  No caso das universidades, para muitos jovens é a primeira vez que saem de casa. Os pais lhes entregam os filhos, e elas, o que fazem? Adotam uma política de avestruz. Agora, esses jovens estão livres para serem atraídos pelos ‘empreendedores’ dessas falsas festas, nas quais não há lugar para a velha e boa conversa. É essa omissão que se espera de uma instituição que tem, segundo a Constituição, o papel de formar o cidadão?  
Para onde vão nossas festas juninas regadas a vinho quente e quentão? O que será do IX de Agosto, onde o atual Magnífico deve ter participado de boas tertúlias literárias e políticas?
O ditado que abre este artigo, existente em quase todas as línguas do mundo, indica que é difícil mentir quando se está sob o efeito da bebida. Será este o objetivo verdadeiro dessa infeliz lei? Proteger a mentira? Vinda de onde vem, é uma hipótese que merece consideração.
Tenho certeza, contudo, que a criatividade estudantil inventará um jeito de driblar regras como esta que trazem um forte ranço de fascismo. Não tenho dúvidas de que ainda se pode tomar uma ‘gelada’ no território livre do CA XI de Agosto, nos porões vivos da Academia do Largo de São Francisco e se conversar sobre o que se conversa numa roda de amigos. Tenho convicção de que, em breve, teremos uma cerveja de 4° GL, e um quentão de 3,5% GL para fazermos muitas e gostosas festas nos campi das escolas do estado de São Paulo. Um brinde à convivência sadia e uma vaia à hipocrisia!

¹é docente do departamento de Psicologia e Educação da FFCLRP/USP

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A velha questão aborto

Nesta segunda-feira, dia 18, foi divulgada a decisão do juiz da 8ª Vara Cível de Belo Horizonte, Jair José Varão Pinto Júnior, negando o pedido de uma jovem mineira para realizar aborto. Seu feto, de 14 semanas, foi diagnosticado, por exames, com pouca quantidade de tecido encefálico, o que poderia indicar anencefalia. As seguintes declarações refletem  a opinião do magistrado:
 
Nem a ciência nem os homens podem afirmar o que se reserva a esta vida ou àquelas que com ela estão veiculadas"
Desta forma, há vida. Não nos compete retirá-la. A obstrução desta vida não possui respaldo legal

Pesquisando rapidamente na internet (mais precisamente no Wikipedia) temos uma idéia simples – mas correta – do que é a anencefalia. Resumo em duas frases:
 
A palavra "anencefalia" geralmente é utilizada para caracterizar uma má-formação fetal do cérebro
Trata-se de patologia letal

O ser (e aqui é difícil usar a palavra correta) pode nascer morto ou morrer após algum tempo, mas o que é certo é que ele morrerá. Então sabemos o que se reserva àquela vida. E mais: podemos chamar de vida este recém-nascido (de novo a palavra)? Um ser que não pensa, não tem consciência de nada, só funciona?
Quando o assunto é aborto a discussão sempre cai no tema quando começa a vida. O problema aqui é que não existe, e nunca existirá, um consenso sobre este assunto. Se uma bactéria é vida, então um óvulo fecundado também é. Assim como um gameta (campanha Anti-masturbação), já que também é uma célula. Simplesmente não faz sentido utilizarmos este critério.
Alguns refinam este mesmo método: a vida começa com a formação do cérebro. O que é vida, neste caso? Vida humana que sente? Mas, sente o que? Não temos como definir estas questões, e nunca teremos. É uma questão puramente ética, a ciência não tem como estudar o tema por ser meramente uma questão semântica, de definição de termos (vida, sentir).
Mas, isso realmente importa? Dirão que sim, pois, se houver vida, então o aborto é considerado assassinato.
É uma forma muito simplista de se pensar. Nas fases iniciais nem o tubo neural está formado. E mesmo depois de formado, existe desenvolvimento posterior, portanto, demora certo tempo para que o encéfalo esteja formado. Desta parte a ciência dá conta. Entretanto, nem nestas fases é permitido o aborto na nossa legislação.
Mas, insisto, isso é o que realmente importa? Este debate interminável sobre o início da vida barra qualquer avanço na legislação brasileira sobre o tema. Enquanto isso, 1 em cada 5 brasileiras de mais de 40 anos afirma ter realizado aborto, um número alarmante. Esta polêmica – como a imprensa adora chamar – trava até mesmo os debates sobre o assunto.
Ninguém quer invadir a privacidade e individualidade, e mudar a opinião das pessoas. Mas o aborto já não é um problema apenas ético e moral; torna-se agora muito mais um problema de saúde e social.
De saúde, pois, se o aborto é proibido e ainda assim realizado, os métodos clandestinos, certamente, não são confiáveis e seguros. Muitas mulheres são mutiladas e até morrem tentando abortar um feto.
E social também. Mesmo os métodos anticoncepcionais falham, portanto, qualquer pessoa está sujeita a uma gravidez indesejada. Uma jovem pobre e grávida dificilmente conseguirá sustentar seu filho e dar uma vida descente a ambos, e talvez – e muito freqüente –para os outros filhos. Desta forma, devemos ponderar. Não é justo garantir vida descente à mãe ao invés de uma vida miserável a ambos? Garantir nutrição, saúde e educação a todas as crianças que os pais planejaram, ao invés de uma vida miserável a muitos?
Considero essas as questões pertinentes na discussão da legislação brasileira (e não na “festa da liberação”) sobre aborto. Não cabe às igrejas ou candidatos à presidência discutirem o tema. A sociedade inteira deve debater e decidir quais pontos são mais válidos: a eterna discussão sobre o início da vida ou as implicações sociais que o aborto clandestino traz para a sociedade.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A hora da escolha

O seguinte texto foi retirado do site do Le Monde Diplomatique Brasil revista/jornal mensal que assino famoso principalmente na França. Quem nunca teve contato deveria adquirir um exemplar para provar da qualidade impar desta publicação no Brasil.

Este texto (não sei nem se poderia ter colocado-o aqui...) é uma amostra do conteúdo do Diplô. Aproveite

Por Silvio Caccia Bava, editor de Le Monde Diplomatique Brasil e coordenador geral do Instituto Pólis.

"Mesmo com condições que deixam tanto a desejar, temos que fazer uma escolha. Para muitos não será uma escolha pela sua identidade pessoal com um projeto político. Terá de ser uma avaliação em função das opções concretas. Falo especialmente para os que votaram em Marina no primeiro turno e para os que anularam"

A campanha eleitoral do PSDB e das elites conservadoras neste ano traz características surpreendentes, porque consideradas superadas há muito tempo. É um renascer conservador que usa de todos os métodos, manipula, distorce, falseia, na tentativa de seduzir o eleitor sem dizer a que veio, sem apresentar sequer um programa de governo.
Temas como a crença em Deus, o aborto, a liberdade de imprensa, a corrupção, dominam a agenda eleitoral e, em si, já demonstram que não é o futuro do Brasil que os preocupa, mas desclassificar e derrotar seus adversários por quaisquer meios. E é tal a manipulação que, neste momento eleitoral, apresentam estes temas como se fossem da alçada de decisões da Presidência da República, o que não é verdade.
A separação entre a Igreja e o Estado é um dos princípios que funda o Estado moderno, que também é assegurada na Constituição de 1988 e em todos os países ocidentais. Crer ou não em Deus, ter ou não uma religião, são temas da vida privada, de foro pessoal, e assim devem continuar para garantir o respeito à diversidade e pluralidade culturais, fundamentos da democracia e da paz, ou voltaremos aos tempos das inquisições e da fogueira para sacrificar os hereges.
A descriminalização do aborto não é uma “política para matar criancinhas”, como declara solertemente a oposição. É uma questão de saúde pública que se propõe para evitar a morte de milhares de mulheres, condenadas a enormes riscos ao realizarem seus abortos de forma precária e clandestina, sem qualquer apoio do poder público. E é importante frisar que também aqui, neste caso, a decisão por adotar estas políticas não é da Presidência da República, mas sim do Congresso Nacional.  
A questão da corrupção, ela sempre esteve presente na política brasileira, na democracia das elites, que se servem deste expediente na defesa de interesses privados, afrontando a dimensão pública e o interesse coletivo. Se é verdade que os expedientes do “dá lá, toma cá”, estão presentes também no atual governo, o que é lamentável e demanda uma reforma política para instituir controles democráticos efetivos sobre Executivo, Legislativo e Judiciário, não dá para o PSDB posar de vestal, basta lembrar as denúncias da compra de votos que permitiram a FHC modificar a Constituição e ter seu segundo mandato.
Esta agenda eleitoral, fundamentalista e despolitizada, que não trata das questões que importam para o futuro do país, só ganhou importância pelo destaque que a mídia lhe deu – TVs e jornais – que atuaram de maneira articulada, impondo sua versão dos fatos e tentando transformá-la em realidade. Nunca é demais lembrar que uma das questões centrais da democratização de nosso país é retirar do controle de apenas 9 famílias estes meios de comunicação. A tão propalada ameaça à liberdade de imprensa nada mais é que a defesa deste oligopólio, que por sua vez representa o conservadorismo, agora mais radical neste fim de campanha eleitoral.
Assistimos a um deslocamento ideológico onde o PSDB passa a ocupar o lugar do DEM, e o PT o lugar do PSDB. Esta situação abriu um espaço à esquerda no espectro político. Se Marina tivesse se aliado aos pequenos partidos à esquerda, que nasceram como dissidências do PT, poderíamos ter tido uma opção eleitoral à esquerda, mas este não foi o caso, como se pode ver com o alinhamento informal do PV à candidatura do PSDB. Marina paga agora o preço de sua ingenuidade.
A expressiva votação de Tiririca para deputado federal combina com a despolitização desta campanha e com um sentimento de rejeição pela política e pelos políticos de importantes setores da população, que desconfiam da falsidade das campanhas eleitorais e desta manipulação midiática. Afinal, como as candidaturas à presidência prometem mais creches, escolas, saúde, se estes equipamentos e serviços são responsabilidade dos governos municipais?  Por que não falam de cambio, política externa, integração regional, projeto de desenvolvimento?
A verdade é que as candidaturas se dobraram à lógica das pesquisas eleitorais e das estratégias de marketing. Falam o que o eleitor quer ouvir. Prometem como sempre prometeram, a cada eleição. O importante nas condições atuais é construir critérios para avaliar as opções. E um deles pode ser o de comparar os governos que estes dois partidos realizaram e avaliar não só o quanto cumprem de suas promessas, mas o que fizeram pelo povo brasileiro.
Embora eles não estejam enunciados com clareza, existem dois projetos para o Brasil em disputa. O do PT é a continuidade de um processo de crescer favorecendo as grandes empresas nacionais e redistribuindo alguma (pouca) riqueza, permitindo a inclusão dos mais pobres. É a isso que se chama social democracia, uma antiga bandeira do PSDB. Já o projeto do PSDB é radical no sentido de favorecer o livre mercado, como se estivéssemos nos anos 90...  E o livre mercado não tem nenhum projeto de desenvolvimento autônomo para o Brasil e nem se preocupa com o interesse público. Não é preciso dizer que esta opção só favorece as elites tradicionais, que se transformam em sócias menores do capital internacional, quando o fazem. Nesse caso, nossas riquezas irão beneficiar outros senhores e a desigualdade aumentará.
Mas, mesmo com estas condições que deixam tanto a desejar, temos que fazer uma escolha.  Para muitos não será uma escolha pela sua identidade pessoal com um projeto político. Terá de ser uma avaliação em função das opções concretas. Falo especialmente para os que votaram em Marina no primeiro turno, para os que anularam o voto, para os que se abstiveram.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Biologia Sintética



               Publicado em julho de 2010, o artigo de Craig Venter, intitulado Creation of a Bacterial Cell Controlled by a Chemically Synthesized Genome foi classificado pelo próprio como “um avanço tanto filosófico como técnico". No trabalho, Venter descreve a criação de um organismo cujo genoma é 100% sintético. Para o autor, as possibilidades que sua criação traz são inúmeras. [1]

               E de fato são. Mas inúmeras em que sentido? São possibilidades de melhora da existência humana e de sua qualidade de vida ou apocalípticas? Utilizando-se da discussão que houve numa aula de Genética II, do curso de biologia da USP-RP, sobre o nosso seminário com tema de Biologia Sintética, exporei alguns dos pontos principais desta polêmica discussão.

               Craig Venter, para quem não conhece, é fundador da empresa Celera Genomics, do The Institute for Genomic Research e do J. Craig Venter Institute[2]. Se não o reconhece por essas referências, talvez seja mais familiar dizer que ele foi o concorrente privado da iniciativa pública no projeto Genoma Humano, que visava codificar toda a base genética da nossa espécie. Aliás, ele se propôs a fazer o mesmo que o orçamento público se comprometeu, mas em menos tempo e com menor gasto financeiro. E conseguiu. 

Mas, retornando ao tema principal, o entusiasmo de Venter advém de uma das idéias envolvendo a biologia sintética e seu organismo sintético (na verdade, ele não criou um organismo sintético, ele copiou o genoma de uma bactéria para um computador, codificou, sintetizou e transplantou-o para outra espécie de bactéria. O genoma é sintético, mas o organismo em si, nem tanto assim). Essa idéia visa criar um organismo base, ou seja, um organismo que só apresente os genes necessários para a manutenção de sua vida num ambiente desejado. Isto é, este organismo 100% sintético não produzirá nenhum gene considerado desnecessário por seus criadores.

Qual o objetivo do organismo base? Pense em um computador simples. Você pode instalar uma placa de vídeo e conseguir jogar jogos de última geração; pode instalar uma impressora e imprimir seus arquivos e fotos; pode instalar um scanner e digitalizar qualquer coisa que quiser. Exatamente como neste exemplo, na bactéria base poderíamos “instalar” qualquer gene que quiséssemos e produzir qualquer substância de interesse.

Agora visualizar o potencial da descoberta se torna mais fácil. Uma vez identificado um gene produtor de etanol, podemos colocá-lo nesta fábrica/ bactéria e produzir etanol em larga escala e a um baixo custo. O mesmo pode ser feito com medicamentos, só precisamos conhecer o gene codificante do princípio ativo e começar a produzir. Podemos inventar genes também para produzirmos qualquer coisa que nos fosse necessário. E é neste qualquer coisa que surge o problema...

Em meados do século XX, um físico estadunidense chamado Julius Robert Oppenheimer, estudava uma nova forma de se produzir energia. Destinava sua atenção aos processos energéticos que as interações subatômicas apresentavam. Um potencial de produção de energia e de crescimento tecnológico imensos para a humanidade. Entretanto, apesar das boas intenções iniciais, Oppenheimer integrou o projeto Manhattan durante a Segunda Guerra Mundial. O que fez este projeto? Hiroshima e Nagasaki.

Citei Oppenheimer, pois ele integrou de fato o Projeto Manhattan. Contudo, outro nome bastante conhecido cujos estudos nesta área tinham uma boa intenção é o de Albert Einstein. Isso nos mostra que, se, algum achado científico ou nova tecnologia, apresentar, mesmo que mínimo, potencial para usos militares – e militares financiam pesquisas nessa área - terroristas ou qualquer uso destrutivo, algum brilhante cidadão fará uso disto. Muitas tecnologias apresentam tal potencial e, portanto, um risco para a humanidade. Entretanto, os riscos que a biologia sintética oferece são de uma magnitude impressionante (e preocupante).

Em 2006, o jornalista James Randerson foi capaz de encomendar uma parte do DNA do vírus da varíola de uma empresa pela internet. Alguns pesquisadores já recriaram em laboratório os genomas dos vírus causadores da poliomielite e da gripe espanhola. Se hoje, que, praticamente, não existem aplicações efetivas, já estão criando e recriando estas perigosas sequências, o que nos garante que, quando o organismo base for realidade, isto também não acontecerá? Imagine a aplicação lúgubre que genomas destes tipos terão em conflitos entre povos. Uma nova era de armamento biológico e destruição, numa escala nunca antes imaginada, terá início.

Mas não é só isso. Alguns pesquisadores pensam em fabricar nossos próprios filhos. Imagine o potencial de design que teremos quando nossa forma não estiver limitada à necessidade de reprodução, afirmou Drew Endy, professor assistente do Departamento de Engenharia Biológica do MIT e ferrenho defensor das pesquisas em biologia sintética. Alguém pode achar essa idéia boa, assim poderemos ser imunes a qualquer doença, ser muito bons em esportes, fabricar gênios para a humanidade, enfim, mais um grandessíssimo potencial, não é?

Depende. Quanto custa um bebê de proveta? Achei no Google um site dizendo que “por volta de 6000 reais” e outro afirmando que no máximo 3000 reais. Essa tecnologia nasceu em 1978, ou seja, fazem 32 anos já, e ela não é uma tecnologia popular, como você pode ver pelo seu preço. Agora você se pergunta, porque raios ele está falando disso.

Se um bebê de proveta custa, na melhor das hipóteses, 3mil reais, quanto custará a fabricação de um filho, com todos os opcionais desejáveis? Não faço a mínima idéia, mas eu sei que eu não terei esse dinheiro e, provavelmente, 80% da população mundial não o terá também.  Podemos facilmente pensar nas implicações sociais desta área da biologia sintética. Uma classe de ricos superdesenvolvidos, superevoluídos dominante sobre o resto da população humana, quase que um Admirável Mundo Novo, se assim desejar.

Sem contar nos riscos de estes organismos saírem do nosso controle, disseminando pela natureza e competindo com os organismos naturais, causando extinções e conseqüente desequilíbrio na vida em toda a terra. Este é o cenário apocalíptico da biologia sintética.

Cabe não só aos cientistas e governantes, mas a todas as pessoas pensantes avaliar os impactos e perigos para a espécie humana e para a vida como um todo que pesquisas nesse novo ramo da ciência trarão. Good science, Bad science...


domingo, 3 de outubro de 2010

Criminalização de movimentos sociais

No 5º editorial USP Destaques editado pela Assessoria de Imprensa da Reitoria da Universidade de São Paulo, de 24 de setembro de 2010 o assunto abordado foi a criminalização dos movimentos sociais universitários. Os autores do editorial justificam-no, logo na primeira página, afirmando que foram disseminadas informações equivocadas e sensacionalistas sobre o assunto, por isso se fez necessário este “esclarecimento”.
Com imagens de pessoas encapuzadas e prédios depredados o editorial argumenta que não existe uma “criminalização” destes movimentos, mas que, na verdade, algumas das suas atitudes são criminosas, como a destruição de patrimônio público.
Não há uma referência direta a uma manifestação específica, entretanto, pelas fotos e detalhes do texto podemos perceber que os editores se referem, principalmente, à invasão do prédio da Administração Central da Reitoria da USP, realizada no dia 9 de junho de 2010. Neste acontecimento, segundo o próprio editorial, divisórias de paredes de vidro foram quebradas, quatro portas blindadas foram totalmente destruídas, uma parede de alvenaria foi demolida, um portão foi danificado e 44 câmeras de segurança foram furtadas, entre outros atos de vandalismo.
Na ocasião, os manifestantes classificaram o ocorrido como “ato de repúdio ao reitor autoritário”. É óbvio que atos de vandalismo e destruição do patrimônio público, como este, não são, de forma alguma, justificáveis e são condenáveis. Uma grande parcela (a maioria) dos grevistas se mostrou contrária a estes acontecimentos, recusando-se, inclusive, a entrar no edifício da reitoria, como aponta matéria do jornal Estadão. Quanto a estes assuntos, o editorial se mostra sensato, afirmando que a Universidade de São Paulo deveria acionar os mecanismos jurídicos legítimos para a identificação e punição dos responsáveis.
Contudo, notamos alguns deslizes no texto que deixam muito evidente a parcialidade, que foi logo alertada, também na primeira página do editorial. Leia o seguinte parágrafo retirado do texto “Ninguém está acima da Lei”, da última página do editorial:
Tais mecanismos de apuração e individualização são sempre conduzidos por comissões colegiadas, compostas por três membros, que analisam as provas e chegam a uma conclusão, acolhida ou não pela autoridade universitária, que por ser o diretor da Unidade ou o reitor, conforme o caso. Percebe-se, assim, que não há, nem poderia haver arbítrio de única pessoa
Essa grotesca contradição só pode significar duas coisas: a pessoa que redigiu o texto não compreende o significado do verbo acolher e da palavra arbítrio ou essa mesma pessoa acha que todos nós somos completos imbecis. Se existe um colegiado para julgar os atos e chegar a uma conclusão, ótimo, assim, realmente, não arbítrio de única pessoa – apesar de três pessoas nesse colegiado, em minha opinião, ser um número muito pequeno. Mas logo em seguida aparece a afirmação de que o reitor, no caso, pode “acolher ou não” o que o colegiado decidir. Ou seja, a opinião do reitor – uma pessoa, única e magnânima pelo jeito – é a que vale no final. O colegiado pode não sentenciar nenhuma pena para um ocorrido, mas, se o reitor quiser, ele pode condenar os responsáveis, contrariando a comissão. Desculpe-me, mas não somos completos imbecis, nesse caso.
Outro ponto levantado pelo editorial é a responsabilidade que uma mobilização deve ter. Segundo os autores,
qualquer mobilização [...] deve ser responsável. [...] Deve haver responsabilidade de meios e [...] responsabilidade de fins
O texto afirma que há mais de 20 anos estes movimentos universitários “exageram nos meios”. Certamente, como os atos de depredações elucidam. Entretanto, eles também afirmam que os grevistas perdem sua razão quando utilizam palavras de baixo calão ao se referir aos dirigentes da Universidade, o que cansa estes dirigentes, que, por sua vez, interrompem as negociações em curso. Alguém cai nessa?
Tomemos como exemplo as manifestações ocorridas em 2009. No caso, a reitora se recusou a receber os líderes do protesto, o que também culminou na invasão da reitoria. Na greve deste ano também houve falta de diálogo. Os funcionários receberam 6,57% de aumento, assim como todos os outros segmentos da USP. Entretanto, aos docentes foi conferido um extra de 6%. Os funcionários, com razão, defendiam seu direito de receber o mesmo aumento. Após semanas de manifestações, o reitor decidiu descontar os dias de greve do salário dos funcionários. Segue trecho retirado do site Guia Trabalhista para sua própria reflexão:
A Constituição Federal, em seu artigo 9º e a Lei nº 7.783/89 asseguram o direito de greve a todo trabalhador, competindo-lhe a oportunidade de exercê-lo sobre os interesses que devam por meio dele defender
Após essa atitude, no mínimo equivocada, do reitor é que os manifestantes invadiram a reitoria. Novamente, esta atitude não é justificada de nenhuma forma, mas, certamente, ela foi um reflexo da atitude também não justificada do reitor.
Eles também criticam o fato de os grevistas atrapalharem, com “faixas, barricadas, tapumes e cordões humanos”, o acesso de pessoas aos locais de trabalho e creches na Universidade.  A meu ver, uma greve só tem efeito se for incômoda. A greve chama atenção para a importância destes trabalhadores tornando a vida de quem depende deles mais difícil. Só assim uma greve funciona.
Após algumas frases de efeito como “quem grita perde a razão”, o editorial termina com a seguinte frase:
Onde está e quem deve responder pela propagada criminalização dos movimentos sociais no âmbito da Universidade?
Para mim a criminalização está não só na destruição do patrimônio público por parte de alguns manifestantes, mas também na recusa em manter negociações, na falta de valorização de carreiras públicas em detrimento de outras, no envio da polícia para “manter a ordem” e no desrespeito que algumas pessoas tem por outras, tentando nos persuadir de coisas absurdas, como a USP ser democrática e o significado da palavra arbítrio, por exemplo.

Para quem quiser dar uma olhada no editorial clique no link USP Destaques nº5