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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um pouco de poesia

Transcreverei aqui um dos poemas, o VIII, de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro, retirado do livro "Poemas Completos de Alberto Caeiro". Li-o esse fim de semana e achei muito bom, espero que gostem também.
Já havia lido o livro há alguns anos, mas não dei muita importância e nem gostei muito dos poemas (talvez pelo fato de ter sido em época de vestibular, e leitura obrigatória, comigo, não funciona muito bem...). Contudo, após ter visitado a exposição Fernando Pessoa que estava em cartaz no excelente Museu da Língua Portuguesa - para quem ainda não teve a oportunidade de visitar este museu, visite, vale muito a pena - decidi voltar a lê-los. Alberto Caeiro é um dos muitos heteronômios do português Fernando Pessoa. Impressionante a capacidade deste poeta em criar vidas paralelas à sua, com toda uma história e filosofia independente. Até mesmo os poemas assinados com o próprio nome não transmitiam, exatamente, sua verdadeira personalidade - se é que existiu tal. Nas palavras de Pessoa, que o introduzem muito bem, o poeta é um fingidor.
Voltando a Caeiro, segundo Fernando Pessoa, ele nasceu em abril de 1889 e viveu grande parte de sua vida com a tia-avó, uma vez que era órfão de pai e mãe. No final de sua vida mudou-se para Lisboa, onde morreu de tuberculose com apenas 26 anos. Considerado o Poeta da Natureza, o Antimetafísico, Alberto Caeiro dizia que para conhecer as cousas deveríamos apenas ver e sentí-las, e não pensá-las. Tudo é o que é, e nada mais. Uma das estrofes do X poema d'O Guardador de Rebanhos exemplifica bem sua - se é que pode-se assim chamaá-la - filosofia:

"Nunca ouviste passar o vento.
 O vento só fala do vento.
 O que lhe ouviste foi mentira,
 E a mentira está em ti."

Sem mais delongas, vamos ao VIII poema (apesar de um pouco longo, vale a pena), mas, antes, colocarei a nota de rodapé que está presente no livro (espero não ter problemas com direitos autorais...). Aí vão ambos, divirtão-se!

Nota: "Diz o autor em carta de 3 de dezembro de 1930 a João Gaspar Simões: 'O que lhe poderei enviar, se quiser, é o oitavo poema de O guardador de rebanhos, ou seja, o poema sobre a vinda de Cristo à terra, que não publiquei na Athena por o que é de ofensivo para a Igreja Católica: nem isso convinha à Athena, como publicação em geral, nem estava certo, sendo católico o Rui Vaz, diretor comigo da revista e proprietário dela."

VIII
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino, 
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.

Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas - 
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida, 
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água, 
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros, 
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que eu duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

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Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe 
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte 
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a lus do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o 
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

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Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

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Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?






Alberto Caeiro, heteronômio de Fernando Pessoa

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