Por Diógenes Marcelo Carvalho¹
O esporte, hoje, é um negócio global. Na NBA, a liga de basquete dos Estados Unidos, as equipes são franquias. O futebol, como todas as áreas da vida, também não escapa dos tentáculos do capitalismo. Desde seus primórdios, aquele que é considerado o esporte mais popular do mundo vem cada vez mais sendo transformado mais em um negócio - e em espetáculo - e menos em esporte, distanciando-se de suas raízes comunitárias e do torcedor. O caso mais evidente disso é o futebol inglês, para muitos o verdadeiro país do futebol.
Em 1992, criou-se a Premier League, que marcou o rompimento dos principais clubes ingleses com a Football League, com o objetivo de tirar vantagem das vendas dos direitos de transmissão do campeonato. Associada às mudanças exigidas pelo Relatório Taylor, desde então, o que se viu foi uma intensa modernização e profissionalização do futebol inglês, que acabou por se tornar o mais rentável campeonato de futebol do mundo e, portanto, o modelo para outros países. Em 1986, os clubes receberam £6,3 milhões por um acordo de dois anos pelos direitos de transmissão; pelo contrato atual, a Premier League recebe, por três temporadas, € 3,538 bilhões no total, valor que é desigualmente distribuído entre as equipes, criando uma elite futebolística que, na posse da maior parte do capital, domina o campeonato local e esmaga os clubes menores.
O torcedor passou então a ser tratado como consumidor. A globalização e o desenvolvimento dos meios de informação criou um mercado gigantesco para os clubes de futebol. Hoje em dia, é comum que clubes europeus façam pré-temporadas na Ásia, na busca não por novos torcedores, mas de novo mercados, milhões de pessoas dispostas a consumir chaveiros, bolas de golfe, camisas, bonés, canecas e muito mais, tudo com a marca do clube do coração. Nos estádios ingleses, os espectadores são obrigados a ficar sentados e se comportar, sendo vigiados por fiscais que repreendem os torcedores mais exaltados, como relata Marcos Alvito, em matéria para a Revista Piauí: "Durante um jogo do Birmingham City contra o West Ham, um desses funcionários proibiu-me de tirar fotos com minha humilde e despretensiosa câmera fotográfica. A explicação: o espetáculo é propriedade do clube. E dele agora fazem parte os mascotes infantilóides, como bichos de pelúcia gigantes: leõezinhos, elefantinhos, cachorrinhos. À venda na loja do clube, é claro" . Os estádios também não escaparam. Novas e modernas arenas são construídas, muitas vezes desrespeitando as raízes dos clubes, mudando de bairro e distanciando-se da vida comunitária, mas garantindo aos clubes rendas provenientes da instalação de lojas dentro dos estádios, maior capacidade de público e também através da venda dos naming rights, que ajudam a viabilizar a construção das arenas. Temos, assim, a Allianz Arena na Alemanha, o Emirates Stadium e o Reebok Stadium, na Inglaterra. Tudo passa a ser mercadoria. O nome dos campeonatos também não escapam: a primeira divisão inglesa se chama Barclays Premier League; o principal torneio sul-americano se chama Taça Santander Libertadores da América.
Preços proibitivos foram postos em prática na venda de ingressos, na Inglaterra, na tentativa de afastar as camadas mais pobres (e os hooligans) dos estádios, resolvendo de uma tacada só o problema da violência e trazendo uma classe média disposta a gastar muito dinheiro com o seu clube do coração, tudo em prol do espetáculo:
''(...) Era a transformação do futebol num ramo privilegiado da lucrativa indústria do entretenimento."
Em nome da segurança, desencadeou-se um processo de higienização dos estádios de futebol, agora transformados em shopping centers ou, nas palavras dos sociólogos Tim Crabbe e Adam Brown, "'palácios do prazer' onde o espetáculo é 'produzido' para uma variedade de 'consumidores'". Os estádios de futebol, antes considerados territórios sagrados dos clubes e de seus torcedores, muitas vezes são vendidos para construtoras, erigindo-se "arenas multiuso" em lugares distantes do bairro onde tudo começara, privando a vida comunitária de um dos seus centros mais importantes'' (ALVITO, Marcos. (2007) “O esporte que vendeu sua alma”. In: Revista Piauí, 15. dez.)
Os clubes agora são empresas, inclusive com ações nas bolsas de valores. Vários clubes ingleses estão nas mãos de estrangeiros, cujos interesses não estão sempre ligados ao sucesso esportivo. "Não é mais tudo pela vitória. Agora, é tudo pelo equilíbrio contábil" (idem). Mas há exceções, como o Chelsea, tradicional clube de Londres, comprado em 2003 pelo bilionário russo Roman Abramovich, acusado de diversos crimes na Rússia, mas disposto a dispender de centenas de milhões de dólares e aparentemente pouco preocupado com o equilíbrio contábil, o que transformou o clube em um dos mais importantes do mundo. Com a crise econômica de 2008, os americanos donos do Liverpool assumiram grandes dívidas e quase levaram o clube à falência, da qual só escapou com a venda para outro norte-americano na data-limite para que a quebra do clube fosse evitada. O Manchester United, clube com maior faturamento do mundo, também tem dono americano e uma dívida de US$ 1 bilhão.
Além de consumidores, os fãs do futebol são explorados de outra forma por seus clubes:
(...)Quando a Fifa alardeia que os estádios devem estar lotados, portanto, é mais uma questão de estética de show do que financeira. O lucro da entidade em nada depende da venda de ingressos, mas para o sucesso do espetáculo as arquibancadas precisam estar cheias. "É o que o Berlusconi disse: o futebol ideal vai ser o dia em que a torcida receber para estar no estádio e se comportar exatamente como uma claque de auditório de um programa de tevê", comentou Alvito. (A Copa do Cabo ao Rio. Revista Piauí, n. 44.)
Ou seja, o torcedor se torna parte do espetáculo, parte da mercadoria. Ao preencher os espaços vazios dos estádios, ajudam a valorizar os torneios e a atrair cada vez mais dinheiro para os clubes nas vendas de direitos, sem receber nada por isso, ou melhor, pagando caro. Outro exemplo de trabalho não pago é o caso de um torcedor do Corinthians, que criou uma música que se tornou popular em jogos da equipe em 2008. Sem remunerar o torcedor, o clube passou a utilizar a música em ações de marketing, camisas e até em um filme sobre a equipe. Os espectadores do futebol também são bombardeados pelos patrocinadores o tempo todo, em placas ao redor dos gramados, produtos licenciados, patrocínios nos uniformes e por produtos anunciados pelos próprios jogadores, que deixam de ser meros futebolistas e se tornam modelos, fazem propagandas de lâmina de barbear e xampu a refrigerante e cerveja, tornando-se meio para a exposição de produtos. Alguns até encarnam o papel e parecem mais preocupados com a própria imagem do que com seu desempenho em campo, como o português Cristiano Ronaldo, que durante a Copa do Mundo da África do Sul olhava repetidamente para o telão do estádio, checando como aparecia para as câmeras de todo o mundo.
Uma pessoa que deseja jogar um game é uma pessoa desejado pelo game como fonte de valor. (A regra do jogo: desejo, servidão e controle. GARCIA DOS SANTOS, Laymert; PEIXOTO FERREIRA, Pedro)
Uma pessoa que deseja torcer pelo seu clube é uma pessoa desejada pelo seu clube. As equipes-empresas do futebol moderno precisam de clientes, de consumidores, de pessoas dispostas a gastar dinheiro em suas arenas multi-uso, em seus suvenires e em lotar os estádios e valorizar suas imagens, comprar o produto que o craque de seu time expõe. A lógica do futebol moderno é a lógica do capital. Os clubes precisam arrecadar cada vez mais dinheiro para comprar jogadores que são cada vez mais caros, e para isso o esporte é cada vez mais elitizado, abandona suas raízes.
Em 2005, o Manchester United foi adquirido pelo norte-americano Malcolm Glazer. Grupos de torcedores da equipe se manifestaram veementemente contra a venda do clube para o investidor. Incapazes de evitar a negociação, torcedores dissidentes - que ganharam a alcunha de Red Rebels, parodiando o apelido do Manchester United, Red Devils - criaram um novo clube, o F.C. United of Manchester, que entrou na décima divisão do futebol inglês. Como não poderia deixar de ser, a internet deu também sua contribuição, com a criação do site MyFootballClub. Os interessados se registram no site e pagando certa quantia podem se tornar donos de seu próprio time, que é dirigido através de votos unitários de todos os membros. Em janeiro de 2008, 95,89% dos membros acertaram a compra de 75% do Ebbsfleet United F.C..
Além de fóruns na internet, os torcedores se manifestam também através de fanzines, revistas sobre os clubes editadas pelos próprios torcedores. Um deles, de torcedores do Birmingham City Football Club, tem os seguintes princípios:
''Os valores da publicação são explicitados em cinco princípios, ilustrados por um camisa nove urinando em cima da camisa nove do adversário daquela tarde, o West Ham: Como um apaixonado e leal torcedor dos Blues, tenho direito a: 1. Tomar uma cerveja ou duas antes do jogo e chegar ao estádio quando eu quiser. 2. Torcer da forma mais radical, gozando e gesticulando para os adversários, intimidando-os o máximo possível. 3. Usar a língua inglesa do jeito que eu quiser. 4. Recusar-me a aceitar as instruções idiotas dos funcionários do estádio. 5. Reagir à vitória, ou à derrota, da porra do jeito que eu quiser, e sair do estádio da forma que corresponda ao resultado. Nós somos famosos por verbalizar nossa torcida e nossa paixão, por mais que isso ofenda aqueles que desejam uma primeira divisão pacífica, quieta e silenciosa como uma biblioteca.''
NÃO DEIXEM OS PUNHETEIROS QUE ROUBARAM O NOSSO JOGO ROUBAREM TAMBÉM A NOSSA PAIXÃO." (ALVITO, 2007)
Os clubes de futebol têm papel muito importante na formação de identidade em diversos países, como a própria Inglaterra, onde era praticado, quando surgiu, pelos operários. Os jogos de sábado são tradicionalmente realizados às 15h, isso porque era o horário em que os operários das fábricas saiam do trabalho neste dia. No entanto, essa tradição tem sido cada vez mais desrespeitada para satisfazer as vontades da televisão, a grande provedora dos clubes não só na Inglaterra. Depois de todos os problemas dos hooligans nos anos 80, a posterior modernização e a higienização dos estádios em prol da segurança, a profissionalização dos clubes, o encarecimento do espetáculo - mais espetáculo do que nunca, cada vez menos vivido e mais assistido à distância -, o abismo entre clubes grandes e pequenos e a sobreposição da lógica do dinheiro sobre as raízes, os torcedores passam a se ver distanciados, com sua identidade fragilizada.
O historiador Eric Hobsbawm observou que "o futebol carrega o conflito essencial da globalização": as relações contraditórias entre o teor cada vez mais comercial do esporte e a fidelidade emocional dos torcedores. Marcos Alvito completou o raciocínio dizendo que a globalização contribui para o aumento da racionalização do futebol, "mas isso ao mesmo tempo mina a relação do torcedor com o time. Se ele sente que é tratado como um consumidor, e não como um apaixonado, ele passa a agir como tal".
¹Diógenes Marcelo Carvalho estuda Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)



Muito bom o texto Diógenes. Realmente, é difícil viver hoje sem estar enquadrado em alguma categoria de consumidor, de bebês a torcedores, todos sofremos com a invasão do capitalismo. Ela se enquadra e nos acompanha desde que nascemos até a morte. Além do consumismo muitos clubes, principalmente europeus, promovem comportamentos discriminatórios pelos hoolingans/skinheads.
ResponderExcluirvaleu, Gabriel. acho que meu negócio é falar de futebol mesmo :D
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