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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Biologia Sintética



               Publicado em julho de 2010, o artigo de Craig Venter, intitulado Creation of a Bacterial Cell Controlled by a Chemically Synthesized Genome foi classificado pelo próprio como “um avanço tanto filosófico como técnico". No trabalho, Venter descreve a criação de um organismo cujo genoma é 100% sintético. Para o autor, as possibilidades que sua criação traz são inúmeras. [1]

               E de fato são. Mas inúmeras em que sentido? São possibilidades de melhora da existência humana e de sua qualidade de vida ou apocalípticas? Utilizando-se da discussão que houve numa aula de Genética II, do curso de biologia da USP-RP, sobre o nosso seminário com tema de Biologia Sintética, exporei alguns dos pontos principais desta polêmica discussão.

               Craig Venter, para quem não conhece, é fundador da empresa Celera Genomics, do The Institute for Genomic Research e do J. Craig Venter Institute[2]. Se não o reconhece por essas referências, talvez seja mais familiar dizer que ele foi o concorrente privado da iniciativa pública no projeto Genoma Humano, que visava codificar toda a base genética da nossa espécie. Aliás, ele se propôs a fazer o mesmo que o orçamento público se comprometeu, mas em menos tempo e com menor gasto financeiro. E conseguiu. 

Mas, retornando ao tema principal, o entusiasmo de Venter advém de uma das idéias envolvendo a biologia sintética e seu organismo sintético (na verdade, ele não criou um organismo sintético, ele copiou o genoma de uma bactéria para um computador, codificou, sintetizou e transplantou-o para outra espécie de bactéria. O genoma é sintético, mas o organismo em si, nem tanto assim). Essa idéia visa criar um organismo base, ou seja, um organismo que só apresente os genes necessários para a manutenção de sua vida num ambiente desejado. Isto é, este organismo 100% sintético não produzirá nenhum gene considerado desnecessário por seus criadores.

Qual o objetivo do organismo base? Pense em um computador simples. Você pode instalar uma placa de vídeo e conseguir jogar jogos de última geração; pode instalar uma impressora e imprimir seus arquivos e fotos; pode instalar um scanner e digitalizar qualquer coisa que quiser. Exatamente como neste exemplo, na bactéria base poderíamos “instalar” qualquer gene que quiséssemos e produzir qualquer substância de interesse.

Agora visualizar o potencial da descoberta se torna mais fácil. Uma vez identificado um gene produtor de etanol, podemos colocá-lo nesta fábrica/ bactéria e produzir etanol em larga escala e a um baixo custo. O mesmo pode ser feito com medicamentos, só precisamos conhecer o gene codificante do princípio ativo e começar a produzir. Podemos inventar genes também para produzirmos qualquer coisa que nos fosse necessário. E é neste qualquer coisa que surge o problema...

Em meados do século XX, um físico estadunidense chamado Julius Robert Oppenheimer, estudava uma nova forma de se produzir energia. Destinava sua atenção aos processos energéticos que as interações subatômicas apresentavam. Um potencial de produção de energia e de crescimento tecnológico imensos para a humanidade. Entretanto, apesar das boas intenções iniciais, Oppenheimer integrou o projeto Manhattan durante a Segunda Guerra Mundial. O que fez este projeto? Hiroshima e Nagasaki.

Citei Oppenheimer, pois ele integrou de fato o Projeto Manhattan. Contudo, outro nome bastante conhecido cujos estudos nesta área tinham uma boa intenção é o de Albert Einstein. Isso nos mostra que, se, algum achado científico ou nova tecnologia, apresentar, mesmo que mínimo, potencial para usos militares – e militares financiam pesquisas nessa área - terroristas ou qualquer uso destrutivo, algum brilhante cidadão fará uso disto. Muitas tecnologias apresentam tal potencial e, portanto, um risco para a humanidade. Entretanto, os riscos que a biologia sintética oferece são de uma magnitude impressionante (e preocupante).

Em 2006, o jornalista James Randerson foi capaz de encomendar uma parte do DNA do vírus da varíola de uma empresa pela internet. Alguns pesquisadores já recriaram em laboratório os genomas dos vírus causadores da poliomielite e da gripe espanhola. Se hoje, que, praticamente, não existem aplicações efetivas, já estão criando e recriando estas perigosas sequências, o que nos garante que, quando o organismo base for realidade, isto também não acontecerá? Imagine a aplicação lúgubre que genomas destes tipos terão em conflitos entre povos. Uma nova era de armamento biológico e destruição, numa escala nunca antes imaginada, terá início.

Mas não é só isso. Alguns pesquisadores pensam em fabricar nossos próprios filhos. Imagine o potencial de design que teremos quando nossa forma não estiver limitada à necessidade de reprodução, afirmou Drew Endy, professor assistente do Departamento de Engenharia Biológica do MIT e ferrenho defensor das pesquisas em biologia sintética. Alguém pode achar essa idéia boa, assim poderemos ser imunes a qualquer doença, ser muito bons em esportes, fabricar gênios para a humanidade, enfim, mais um grandessíssimo potencial, não é?

Depende. Quanto custa um bebê de proveta? Achei no Google um site dizendo que “por volta de 6000 reais” e outro afirmando que no máximo 3000 reais. Essa tecnologia nasceu em 1978, ou seja, fazem 32 anos já, e ela não é uma tecnologia popular, como você pode ver pelo seu preço. Agora você se pergunta, porque raios ele está falando disso.

Se um bebê de proveta custa, na melhor das hipóteses, 3mil reais, quanto custará a fabricação de um filho, com todos os opcionais desejáveis? Não faço a mínima idéia, mas eu sei que eu não terei esse dinheiro e, provavelmente, 80% da população mundial não o terá também.  Podemos facilmente pensar nas implicações sociais desta área da biologia sintética. Uma classe de ricos superdesenvolvidos, superevoluídos dominante sobre o resto da população humana, quase que um Admirável Mundo Novo, se assim desejar.

Sem contar nos riscos de estes organismos saírem do nosso controle, disseminando pela natureza e competindo com os organismos naturais, causando extinções e conseqüente desequilíbrio na vida em toda a terra. Este é o cenário apocalíptico da biologia sintética.

Cabe não só aos cientistas e governantes, mas a todas as pessoas pensantes avaliar os impactos e perigos para a espécie humana e para a vida como um todo que pesquisas nesse novo ramo da ciência trarão. Good science, Bad science...


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